Agronegócio

Paraná tem 5 milhões de hectares ociosos no campo

Desafio de institutos é estimular produtores a aproveitarem melhor essa área
A integração aparece como alternativa para aumento de renda e de produtividade (Foto: Aílton Santos)

O campo no Paraná tem um grande e importante desafio a ser vencido e que pode resultar em aumento de produtividade, diversificação das propriedades e incremento à agricultura familiar que hoje responde por mais de 90% dos lotes rurais nos 399 municípios do Estado.

Considerando todas as regiões, existe hoje, segundo o pesquisador do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná), Elir de Oliveira, cerca de 5 milhões de hectares agricultáveis e que estão ou estavam em pousio durante o inverno ou plantas unicamente usadas como cobertura, mas que podem ser integradas na produção de leite e carne, por exemplo. “No uso pecuarista é preciso forrageira de inverno e muitos produtores de soja não colocam gado na área com medo de compactar o solo. Mas nós estamos mostrando que é o contrário, um experimento indo para o quinto ano revela que, onde o gado pasteja, defeca e urina, se for mantida uma cobertura de solo no consórcio forrageiro, logo no primeiro ano teve aumento de rendimento [produtividade] de soja 7,2% se comparada com outras áreas e assim foi aumentando até chegar, no quarto ano, em elevação de 15%. A soja também ganharia muito na integração lavoura e pecuária”, destacou.

A soja é hoje o principal cultivo de grãos na região. São quase 1,1 milhão de hectares destinados à cultura na safra de verão e neste ano devem render cerca de 3,9 milhões de toneladas.

Segundo o pesquisador, os bons resultados vão além e beneficiam o gado com ganho real de peso muito acima daqueles que não são criados em ambientes consorciados.

A chamada integração lavoura e pecuária foi um dos principais focos ontem do 5º Seminário de Integração Lavoura e Pecuária, realizado na sede do Iapar em Santa Tereza do Oeste.

O encontro - que segue nesta quinta-feira - deve reunir pelo menos mil produtores rurais dos escritórios regionais da Emater de Cascavel, de Toledo, de Pato Branco e de Francisco Beltrão.

Em um universo onde estão mais de 100 mil produtores rurais, considerando o oeste e o sudoeste do Estado, o que se pretende com esse encontro, além da sensibilização à conservação de solo, das águas, ao meio ambiente, é estimular o processo de integração. A partir dos seminários, os agricultores servirão como facilitadores dessas ideias em seus municípios de origem. “Temos aqui produtores de ponta, que são multiplicadores e que levarão essas propostas para seus municípios, conversarão com outros produtores, serão replicadores desse conhecimento”, destacou.

Entre os estímulos em assistência técnica, pesquisa e extensão rural que se vislumbra está o aconselhamento ao cultivo, no caso das áreas destinadas aos grãos, da soja no verão e da forrageira no inverno com a pastagem feita por bovinos no local. O solo tende a não ser compactado, em situações como essa porque a forrageira servirá como uma espécie de amortecedor da pata do animal no chão. “Na região oeste, por exemplo, se vê no inverno o cultivo da aveia somente para cobertura e ela poderia ser utilizada na produção de leite e carne. Claro que isso também exigira uma política de governo para incentivar melhor o uso do solo, hoje ela não existe, o que existe é o incentivo da pesquisa e da extensão para a integração lavoura e pecuária”, reforça.

Segundo ele, não se tem como dimensionar o percentual dessa área em pousio para cada região, mas o oeste responde por uma fatia importante e o objetivo, na união das assistências técnicas, é a difusão de tecnologia com propriedades que se tornem referência.

 

Um exemplo à diversificação

José Urbano Braun é um daqueles produtores que fez a lição de casa. Ele veio de Missal para o encontro e sempre apostou na integração para diversificação e qualidade do solo na propriedade. Ele trouxe consigo outros 30 produtores rurais do Município que depois vão levar o conhecimento para 1,8 mil propriedades, das quais 1,2 mil são da agricultura familiar. “A agricultura é conhecimento técnico. Hoje já estou com uma idade um pouco mais avançada, mas sou agricultor uma vida interia e tenho a felicidade dos meus três filhos serem também. Um se formou em contabilidade e é agricultor, o outro se formou em administração e está no campo e no dia 11 de agosto o outro se formou em agronomia. Acho que ele vai ser agricultor também”, conta feliz.

Além de transmitir o conhecimento dos dons da terra, ele é um doador do seu tempo para o bem comum de outros produtores rurais.

José Urbano é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Missal e reforça: quem não estiver atento às tecnologias, à inovação e à extensão rural vai ficar parado no tempo: “Hoje, para aumentar a produção, não é preciso derrubar mais uma única árvore. É só melhorarmos aquilo que já temos e as ferramentas estão aí. A extensão rural e a assistência prestadas pela Emater são essenciais. O pequeno produtor não seria nada sem ela”, destacou.

 

Ainda falta sensibilização

Só que nem todos os produtores têm a mente aberta como José Urbano. A constatação é da própria assistência técnica. Segundo o coordenador regional do Instituto Emater em Cascavel, Elcio Pavan, a assistência técnica e a extensão rural estão constantemente buscando estratégias para difundir as tecnologias e chegar a um maior número possível de propriedades, de modos que todas, principalmente as menores, possam ter acesso às informações, mas a tarefa é árdua. “Nossa função é levar às propriedades, para os produtores, a preocupação e falar da importância de um solo coberto o ano todo. A conscientização está aumentando, mas talvez não o suficiente para que todos possam adotar medidas nos mesmos níveis tecnológicos. Tem produtor que recebe a informação e por algum motivo demora para adotá-la. Isso é natural. Ele só vai adotar quando todos os outros já fizeram e vê que deu certo. Se medidas aconselhadas fossem adotadas, elas poderiam resolver problemas com uma velocidade muito maior”, analisa.

Pavan diz que outro diagnóstico observado é que, quando o acompanhamento técnico deixa de ocorrer na propriedade, ela volta a protagonizar problemas que tinha anteriormente: “Então é preciso estratégia e adesão”.