Política

OPINIÃO: Brasileiro não é Português, é facto!

Outro dia (15/01/2019), lendo os artigos de opinião deste jornal, tive o prazer de ler o ótimo texto do Sr. Amorin sobre O acordo ortográfico em Portugal, que discorreu muito bem sobre a situação do acordo, feito sem o interesse da população e, por isso, com poucas possibilidades de funcionar.

Infelizmente, governantes que não fazem um estudo cultural e não solicitam a opinião da população, utilizando um plebiscito, por exemplo, promovem “reajustes” irreais para a sociedade fadados ao fracasso.

Não seria preciso, mas reitero que os livros editados em Portugal de Pessoa e Camões, por exemplo, citados no artigo anterior, são lidos nas escolas brasileiras com facilidade e raramente um aluno questiona a linguagem encontrada. Parece-me que o olhar dos brasileiros rapidamente se adapta às palavras como: “pharmácia”; “directoria”; ou mesmo ao “rato” do computador que, para nós, é falado usando como referência a língua inglesa: mouse.

Assim, concordo com o que o escritor Amorin relatou, a única observação que gostaria de fazer é em relação ao final do texto, em que ele diz que: “O português não é exatamente o mesmo que o nosso, há diferenças, sim, mas não há necessidade de tradução [...] porque a compreensão é completamente possível”. Pois bem, nesse ponto peço-lhes licença para apresentar a minha experiência como escritora informal em Portugal e demonstrar que talvez o português não tenha a mesma condescendência que o brasileiro.

Trabalhei numa empresa portuguesa que possuía cinco filiais em diversos locais do país, assim, percebi que ajudaria na integração dos funcionários a criação de um jornal interno. Após solicitar autorização ao patrão, encaminhei e-mail para todas as lojas explicando a intenção de criar um material de divulgação dos feitos internos e que o sucesso desse empreendimento dependeria de informações e fotos de cada funcionário, ou fatos relevantes que eles quisessem compartilhar com todos os colegas. A ideia foi recebida com aplausos e eu, com entusiasmo, criei o jornalzinho interno.

Como era um desafio, obter o apoio da chefia contava muito para mim, assim que terminei de escrever o primeiro número entreguei-o para a leitura da supervisora administrativa. A portuguesa, uma senhora inteligente, ao terminar a leitura deu o seu veredicto:

- O texto está muito bom, gostei do jornal, agora só é preciso traduzi-lo...

- Traduzir? Urlei! A senhora não entendeu alguma palavra que escrevi?

Ela, enfática, disse:

- Vocês brasileiros não sabem escrever corretamente, o nosso português é o verdadeiro!!!

Fiquei chocada e sem argumentos. Minha primeira reação foi rasgar o jornal inteirinho, mas depois, como não estava em posição de discutir, saí para tomar um café, relaxar e retornei ao trabalho.

A posição dessa senhora, naquele momento, mostrou-me que não importaria se o Brasil se tornasse uma potência mundial, nós somos os colonizados e eles os colonizadores, eles chegaram primeiro, portanto, eles sabem falar corretamente, enquanto nós, brasileiros, integrantes de um país característico pela sua miscigenação, aceitamos e incorporamos as diversas línguas que aqui se “aconchegam” em nosso território, em nosso coração.

Dessa forma, como somos capazes de entender o que os lusitanos escrevem, acredito que o melhor seria cada um continuar falando a sua língua, sem querer impor um novo idioma a uma civilização, que não deseja ser colonizada.

O Brasil, país da diversidade, continua dando bons exemplos de que, aqui, todos são bem-vindos, até os bons amigos portugueses, e não os colonizadores que impõem a sua vontade.

Jocimar Bertelli é professora de Língua Italiana, às vezes escreve no blog https://letturereincontri.blogspot.com