Política

OPINIÃO: A governança e Brumadinho

A Nação ainda não se recuperou e provavelmente sempre será lembrada da tragédia ocorrida no município de Brumadinho, em Minas Gerais, pelo rompimento da barragem da Vale. Centenas de vidas foram ceifadas, os danos materiais se mostrarão milionários e os estragos ambientais irreparáveis.

Essa tragédia se soma ao rompimento das barragens da mesma empresa no município de Mariana, que causou um dos maiores danos ambientais registrados no planeta, há três anos.

As discussões sobre o assunto não têm fim. Engenheiros, políticos, administradores, jornalistas, técnicos em segurança, ambientalistas e, sobretudo, os cidadãos, entre tantos outros, procuram encontrar justificativas e explicações sobre o ocorrido. Mas a triste realidade é que essa nova tragédia, assim como a de Mariana, espelha a situação caótica em que se encontra a estrutura administrativa e regulatória tanto na esfera pública quanto privada em nosso país. Tão desorganizada é que até hoje, após três anos do ocorrido em Mariana, ninguém foi punido, as reparações não foram feitas e assim por diante. Que descaso com a coisa, com o ser humano e com a natureza!

Buscamos culpados e eles existem. Não estamos falando de um acidente que foge totalmente do controle de qualquer um, mas de uma tragédia anunciada, como tantas outras que poderão ocorrer se nada for feito a curto prazo. Uma grande cadeia que se estende desde nosso Congresso, Poder Executivo, agências regulatórias etc, passando com igual ou maior intensidade pela esfera privada, tem culpa no acontecido.

Logo após correram notícias de que toda a diretoria da empresa deveria ser imediatamente presa, o que não ocorreu. Alguns engenheiros, justa ou injustamente, foram colocados atrás das grades, suspeitos de serem culpados. Mas temos que analisar a questão do ponto de vista da responsabilidade. Esta recai sobre a administração da empresa, englobando sua gestão e sua governança. Queira ou não, o presidente, os diretores, o conselho de administração, como responsáveis pela Vale, deverão ser afastados de seus cargos definitiva ou temporariamente, até que os fatos sejam esclarecidos.

O conselho de administração representa os tantos milhares de sócios, devendo zelar pela correta condução administrativa e estratégica da organização. São algumas poucas pessoas que formam o conselho e que precisam se envolver com inúmeras questões táticas e estratégicas de uma empresa. Pelo volume dos assuntos a serem tratados, são criados comitês para discutir, avaliar, auxiliar e assessorar o Conselho de Administração, os diretores e, sobretudo, a presidência nas inúmeras questões colocadas em pauta. E dentro dos comitês que foram criados sob a égide da Boa Governança Corporativa estão o comitê de Sustentabilidade e o comitê de Governança, Conformidade e Risco. Vejam só! A empresa, pelo menos em sua estrutura de governança, está mais que aparelhada para lidar e zelar com os diversos aspectos que levaram ao rompimento das barragens e suas trágicas consequências. Agora, cabe aos órgãos competentes analisar o histórico da atuação dos comitês, do conselho e de toda a gestão da Vale.

Os membros do Conselho, dos Comitês e da própria gestão, incluindo o presidente da empresa, deveriam colocar de imediato seus cargos à disposição para que uma varredura pudesse ser feita. A disponibilização dos cargos seria, a meu ver, um gesto ético e condizente com a boa governança corporativa da empresa, mesmo sabendo que poderão ser julgados e criminalizados.

Somente o tempo dirá se estamos diante de uma nova Mariana, onde imperou a impunidade ou se de fato as coisas estão mudando. Temos que julgar a apontar os culpados que terão que pagar pelos seus erros ou sua negligência, sejam eles da empresa, prestadores de serviços ou membros do governo.

Thomas Lanz é fundador da Thomas Lanz Consultores Associados, empresa especializada em governança corporativa, gestão de empresas médias e grandes no Brasil