Cotidiano

EUA vetam venda de armas para o Paraguai

Principal comprador, crime organizado brasileiro começa a ficar desabastecido
Pistolas da marca Glock estão entre as principais aquisições do crime organizado brasileiro (Foto: Aílton Santos )

Pedro Juan Caballero - Um relatório do Departamento de Estado Americano apontou que no ano de 2016 cerca de 120 importadores levaram dos Estados Unidos para o Paraguai um total de 25.918 armas, especialmente pistolas Glock e fuzis, e 52 milhões de munições.

Apesar de o volume sugerir, essas importações ocorreram de forma legal, com o devido registro fiscal e alfandegário. O problema está na revenda desse arsenal, cujo principal mercado consumidor é o crime organizado brasileiro, onde chega de maneira ilegal.

A forma como a venda é encaminhada no Paraguai tem chamado a atenção do governo americano. Tanto que há poucos dias os Estados Unidos baixaram uma moratória na qual exigem do governo paraguaio detalhes sobre as certificações e os registros, de modo que os documentos confirmem o verdadeiro dono das armas vendidas. Esse detalhamento precisa ser feito, segundo o governo americano, pela Dimabel (Direção de Materiais Bélicos) do país vizinho. Da forma como ocorre hoje não consegue precisar quem são os compradores de grandes e importantes remessas.

Nos próximos 90 dias os Estados Unidos não exportarão uma única pistola, nem um fuzil sequer ou parte dele, tampouco munição para o Paraguai. Essa relação comercial, hoje abalada, só promete ser reestabelecida se as certificações forem asseguradas e comprovadas.

Essa seria uma das indicações feitas por investigadores do DEA (Drug Enforcement Administration) e do FBI (Federal Bureau of Investigation), que possuem bases na fronteira do Brasil com o Paraguai.

Como esse é um mercado superaquecido, há indícios de que o mercado brasileiro - fomentado pelo crime organizado - começa a ficar desabastecido. Vale lembrar que grupos criminosos estavam em um ritmo acelerado de compra de armas e munições para se preparar para uma verdadeira guerra entre facções na disputa por espaço, mercado e poder.

Assim, os importadores paraguaios, sobretudo os dois maiores que respondem sozinhos pela importação de mais de 80% das armas e munições que chegam ao Paraguai, buscam quase que de forma desesperada novos fornecedores.

É importante ressaltar que só é possível saber quem são os compradores do material bélico dos EUA porque seguem impressas nas armas importadas as siglas dos respectivos importadores.

Importadora tenta comprar 7 mil pistolas da Turquia

Segundo fontes do Ministério do Interior Paraguaio, apenas uma importadora paraguaia tentou trazer há alguns dias 7 mil pistolas da Turquia. A transação até caminhava bem mas foi barrada graças às ações do governo norte-americano e de forças de segurança paraguaia, após um intenso trabalho de investigação. “Essa é uma das provas que eles buscam novos mercados fornecedores, mas está mais complicado”, revela um agente de segurança que atua na fronteira.

Na outra ponta é possível identificar que a redução das apreensões na rota viciada do tráfico de armas e munições no Brasil também estaria diretamente associada à moratória que tem impedido a chegada de arsenal americano ao mercado paraguaio. Essa é a constatação de profissionais brasileiros de inteligência que atuam na fronteira do Brasil com o Paraguai.

Como é feita a distribuição

As armas adquiridas nos Estados Unidos que chegam ao Paraguai pelas mãos de grandes importadores seguem para as revendas em três grandes mercados que se aproximam do consumidor final: Pedro Juan Caballero, onde estão as maiores centrais de comercialização de armas e munições, Salto Del Guairá e Cidade do Leste, todas na fronteira com o Brasil. A primeira delas fica na fronteira seca com o Mato Grosso do Sul, o que facilita a logística, já que o transporte por via terrestre é uma prioridade, geralmente feita em carros de passeio. As outras duas fazem fronteira com o Paraná (Guaíra e Foz do Iguaçu).

Nesses espaços muitos paraguaios são usados como “laranjas” para a compra das armas e das munições. O registro e o controle que costumam ser simples e sem muitos detalhes geralmente escondem o real comprador, no caso as facções criminosas e os grupos armados brasileiros, quando o armamento se torna ilegal.

Armas colombianas e argentinas

As armas norte-americanas não são as únicas no fácil mercado paraguaio. Os fuzis AK-47 encontrados do lado de lá por grupos criminosos brasileiros têm vindo, segundo o serviço de inteligência de forças de segurança nacional, desviados de arsenais venezuelanos e colombianos, apesar de parte ser de fabricação russa.

Já os fuzis Fal vêm dos desvios de estoques militares da Argentina. Aqui outra frente tem chamado atenção. Como o governo argentino tem fechado cada vez mais suas fronteiras no combate ao crime organizado, esse tipo de tráfico também tem cessado em ampla escala, fazendo com que o mercado criminoso fique desabastecido dessa opção armamentista.

Como os fuzis vendidos em partes no Paraguai para serem montados pelos chamados armeiros após a aquisição também têm sua estrutura ou parte dela fabricada nos Estados Unidos, esse segmento é outro que se vê “ameaçado”. Isso justifica por que algumas apreensões de fuzis feitas no Brasil por agentes de segurança identificaram armas de baixa qualidade ou clones dos ARs (de fuzis considerados top de linha).

Para forças de segurança nacional e do Ministério do Interior paraguaio, o caminho agora será se debruçar sobre a investigação na tentativa de localizar quem serão os grandes fornecedores bélicos a assumirem o mercado, com armas que em breve estarão nas mãos de facções criminosas brasileiras.