Cotidiano

Crítica: 'Pé de ouvido', de Alice Sant'Anna

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RIO — O título do novo livro de Alice Sant’Anna, “Pé do ouvido’’, carrega uma ideia de poesia como segredo sussurrado. Um segredo dito ao pé do ouvido é algo que se distingue da comunicação clara e direta, em voz alta. A temática traz consigo um diálogo com temas pesados da teoria literária, colocando em primeiro plano a questão da subjetividade (o segredo como intimidade do poeta) e da representação (o segredo como fracasso do sentido).

O interesse vem provavelmente de Ana Cristina Cesar, uma das referências evocadas por Alice em entrevistas. Como não ouvir, no segredo do título, uma referência ao livro “A teus pés’’? A exemplo da poesia de Ana C., encontramos em “Pé do ouvido’’ cenas de viagem (tema recorrente na poesia de Alice), narrativas abortadas, o travelling de um percurso subjetivo e reflexivo em que vão se tramando fragmentos de experiência e de pensamento. A poesia como confidência feita num encontro a dois, ou ao pé do ouvido da correspondência pessoal, é um dos dispositivos caros a Ana C.

A construção do vínculo com a poeta morta nos anos 1980 sugere uma tentativa de aproveitamento. Restaria pensar nas particularidades, que são significativas. Em “A teus pés’’, há algo dramático (um “romantismo” de entrega, ironizado), no qual a afirmação do segredo funciona como um modo de provocação, de mobilização do leitor. Em “Pé do ouvido’’, o que encontramos é uma tentativa de elevar o segredo à condição de figura geral da poesia, associada ao impermanente e ao relativo. No primeiro caso, a poesia busca destinar-se. Em Alice (para quem o poema se define como “uma forma de registro, mesmo sabendo que não é fiel aos fatos”), o segredo busca constituir-se como ideia.

Nessa condição, o poema se defronta com a dificuldade de “impressionar”: “escrever que viu uma grande lua/ não impressionaria ninguém/ então guardou para si/ como um segredo: a lua cheia/ dos poemas japoneses”. Impressionar é imprimir uma marca, como aquela deixada no coração (“maçã”) do português do mercadinho, a partir de então disposto a “fazer qualquer coisa”. Como a poesia não é a vida, o segredo poético, abreviado em “registro”, é aquilo que resta da falência da comunicação e que, eventualmente, se guarda “para si” — a não ser que seu sonho de “poesia japonesa” sirva para que se conte sempre “a mesma história/ só para estar junto/ ficar junto”.

Pensando em termos de geração, o livro traz uma inflexão próxima à poesia recente de Marília Garcia: também uma poesia de montagem, de registro e cruzamento de lugares, diálogos, situações. Na proposta “antilírica” de Marília, voluntariamente despoetizante, o “engano geográfico” (ou seja, a impossibilidade da coincidência entre o mundo e seu mapa) é exatamente aquilo que nos aproxima da vida, o erro que relança o movimento. A falha e a impermanência, mais do que inconvenientes, são estimulantes.

Já a poesia de Alice Sant’Anna, descartado o eco trivial e provavelmente indesejado do título (“pé de ouvido”), é delicada, com um olhar atento ao aspecto plástico das coisas, às possibilidades de sentido poético dos elementos circundantes. No novo livro, há uma descontração no uso do verso que, como em muitos poetas contemporâneos, não funciona exatamente como recurso retórico destinado a produzir efeitos localizados; antes, como forma genérica de aerar uma verdade tida como muito pesada, mas muito leve ao mesmo tempo. Buscando o sentido, porém desdobrando-se à maneira de um “fluxo de consciência” (técnica característica do romance), a poesia se arrisca à franqueza e ao aleatório.

Claro que, sendo um lugar, “Pé do ouvido’’ remete, também, à passagem. E, entre a língua e o labirinto, encontramos novamente a transição, a viagem. Nesse sentido, o que há de não resolvido na poesia de Alice Sant’Anna não deixa de ter a ver com sua abertura, a busca por colocar-se à altura de seus segredos: “como se veste/ um sobretudo aos poucos/ e não de um dia para o outro?”. Como transformar nossos segredos em “obra”, se no fundo não há segredo, apenas viagem?

* Marcos Siscar é poeta, tradutor e ensaísta

“Pé do ouvido”

Autora: Alice Sant’Anna

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 64

Cotação: Bom