Policial

Contra a criança: quase uma denúncia de crime por dia

(Foto: Aílton Santos)

Hoje é o Dia Nacional de Combate à Exploração Sexual de Crianças e de Adolescentes e apesar de ao longo dos anos haver uma campanha intensa para conscientização a respeito deste tipo de crime e à necessidade de proteção à criança, os dados em Cascavel ainda assustam.

De acordo com o Nucria (Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente) de Cascavel, desde o início do ano, 86 boletins de denúncias de crimes contra a criança e o adolescente foram registrados no Núcleo, que é o setor da Polícia Civil que investiga esses casos. Os registros são referentes ao período de janeiro até na quarta-feira dia 16, quando os dados foram encaminhados à reportagem pelo setor.

O estupro de vulnerável ainda é o crime com mais destaque nesta estatística. Já foram 30 casos denunciados em 2018. Em seguida vêm as lesões corporais, com 12 registros de boletins e denúncias neste ano.

Em 2017, a quantidade de boletins e denúncias é ainda mais assustadora. Foram 252 casos no ano todo. O estupro de vulnerável lidera o ranking, com 71 denúncias. Lesão corporal aparece com 32 destes registros, além de 15 casos de aliciamento de crianças.

No Paraná

No Paraná, os números também são assustadores. De acordo com a Sesp (Secretaria de Segurança Pública), no ano passado foram 1.637 casos de estupro de vulnerável no Estado, com vítimas de até 12 anos; 16 casos de estupro de vulnerável com lesão corporal grave e três com resultado de morte. Em 2018, até abril, foram 562 estupros de vulneráveis, outros cinco estupros com lesão corporal grave e um registro de estupro com resultado de morte da vítima.

 

Escola, local de denúncia

As vítimas destes crimes costumam confessar aos professores a violência sofrida: 44% delas fazem esse relato aos educadores, porque 90% dos casos ocorrem dentro da família, e o professor aparece como uma figura em que a criança ou o adolescente confia. “Por isso que o professor precisa estar atento aos sinais corporais ou comportamentais que demonstram a violência. Se o professor não tiver conhecimento, não percebe esses sinais e a violência continua”, afirma Andrea Martelli, professora Doutora em Educação, que palestrou ontem sobre o assunto no 16º Fórum Municipal de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Segundo Andrea, quando esses sinais são identificados, o educador precisa denunciar o caso. “A denúncia pode ser feita ao Conselho Tutelar ou por meio do telefone disque 100, que é usado especificamente para estes crimes. Essas crianças podem, inclusive, ficar acolhidas, dependendo de quem foi o abusador, porque muitas famílias, infelizmente, ficam ao lado do abusador e muitas crianças acabam na família acolhedora porque a própria família não aceita a situação”, lamenta.

“É muito importante o papel da escola e dos familiares no sentido de prevenção, e o conhecimento é a melhor arma para isso. Atualmente, temos formação continuada com essa temática no caso dos educadores, mas precisamos de uma parceria mais forte com as instituições de ensino”, resume Matelli.

 

Violência contra a criança

2017 252 registros

2018 86 registros até 13 de maio

Dados: Nucria Cascavel

 

No Paraná

Em 2017 - 1.637 casos de estupro de vulnerável

- 16 estupros com lesão corporal grave

- 3 estupros com resultado de morte

- total 1.656

Em 2018 até abril – 562 estupros de vulneráveis

- 5 estupros com lesão corporal grave

- 1 estupro com resultado de morte

- total 568

* vítimas até 12 anos

* Dados Sesp/PR

 

Estupros são velados

Apesar de haver o registro de boletim de ocorrência, a estatística corresponde a 1/3 do que realmente ocorre. E esses casos não vêm a conhecimento da Justiça por diversos motivos.

É o tipo de crime que não tem testemunha. É a palavra da vítima contra a palavra do agressor. E, normalmente, quando o relato da vítima vem à tona, rico de detalhes, é porque o abuso ocorre há muito tempo. “Primeiro porque o agressor é uma pessoa que a vítima ama. Ou pai, ou padrasto, que ela tem como referência. E ela se vê nesse dilema, porque fica preocupada com o fato de perder a convivência com essa pessoa que ela ama e saber que o agressor pode ir preso”, explica a promotora Andrea Frias, que atua na vara especializada de violência doméstica e crimes contra a criança.

A perspectiva de casos não denunciados é a mesma da violência doméstica, com uma diferença: os casos de violência doméstica não são velados. Os de abusos contra a criança são. “São agressores pessoas que ninguém desconfia, que não tem passagem pela polícia. E são agressões que começam muito cedo, quando a criança sequer tem noção do que está ocorrendo”, relata.

Os abusos ocorrem contra meninas em maior proporção, mas também há vítimas meninos. E os abusadores são, na maior parte, padrasto, pai ou parentes das crianças.