Cotidiano

Apesar de ampliação, Paraná ainda precisa de 63 leitos em UTI neonatal

(Foto: Divulgação)

Ela é um fator essencial entre a vida e a morte de um bebê prematuro e na maioria das vezes decisiva entre as sequelas e a cura. Isso foi o que ocorreu com a mãe de um menino que não nasceu prematuro, veio ao mundo de parto normal após uma gestão sem risco à mãe ou ao bebê. Após o parto se verificou que tudo estava bem e o bebê foi liberado para ir para casa. Foi a avó que detectou, no dia seguinte, que o bebê não tinha o orifício do ânus. “Achamos estranho porque ele não havia defecado e quando percebemos foi um desespero. Voltamos ao hospital onde ele nasceu e foi encaminhado imediatamente para o Hospital Universitário de Cascavel, onde ficou clicado por uns dias até que a vaga da UTI surgisse. No momento em que demos entrada no hospital nos falaram que se não abrisse vaga em Cascavel teríamos de ir para onde houvesse vaga, mas felizmente isso não foi preciso e hoje entendo que meu filho só sobreviveu porque havia o leito de UTI neonatal e pelos profissionais que ali atuam”, conta a mãe, que enfrenta ao lado do filho o penoso e longo tratamento até a cirurgia.

“Foram muitas semanas de internamento em um centro que é considerado de referência em unidade de terapia intensiva neonatal, mas sabemos que não são todas as mães que têm a mesma oportunidade”, completa a mãezinha.

E de fato esse não é o cenário vivido em todo o País. Fundamental para a garantia à sobrevivência, os leitos de UTI para recém-nascidos são escassos. Uma pesquisa em todo o território nacional revelou que no Brasil ainda faltam 3,3 mil leitos desses leitos.

As situações mais críticas são enfrentadas por regiões como o Norte e o Nordeste brasileiro, mas o Sul também convive com suas peculiaridades.

Os dados do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde), do governo federal, revelam que, dos 3.305 leitos para os recém-nascidos que faltam, pelo menos 63 deles são no Paraná. Mas a informação relevante é que o Estado avançou, e bem, nos últimos sete anos, na ampliação dessa rede. Passou de 441 leitos em 2010 para 579, aumento de 31%, e a maior amplitude nesses números veio justamente do SUS (Sistema Único de Saúde), pondo o Paraná dentro da linha preconizada, que é de quatro leitos para cada mil nascidos vivos; Por aqui são 3,6 leitos/mil nascimentos.

No primeiro ano desta década, eram mantidos via SUS 266 leitos de UTI neonatal. Ano passado, elas somavam 418, incremento de 58%.

Ocorre que na outra ponta, no sistema particular, os 175 leitos foram reduzidos para 160, retração de 9%. A justificativa, nesse caso, com base na avaliação das próprias unidades, está no elevado custo de manutenção dessas estruturas.

Ocorre que, mesmo tendo esse volume de leitos, o Paraná contabilizou em 2015, último ano com dados consolidados, 1.285 óbitos neonatais, chegando a uma margem de oito mortos para cada mil partos. O indicador não é considerado extremamente elevado nem coloca o Paraná na lista de preocupação, mas se observa, por exemplo, que no resultado geral da análise, segundo a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), por aqui ainda faltam pelo menos 63 leitos para dar conta da demanda em leitos específicos para o acolhimento de crianças que nasceram antes de 37 semanas e que apresentam quadros clínicos graves ou que necessitam de observação nos seus primeiros dias de vida.

No cenário nacional

A falta de mais de 3,3 mil leitos em todo o território nacional representa quase a metade dos serviços já disponíveis e foi estimada com base no parâmetro ideal estabelecido pela SBPM: quatro leitos para cada grupo de mil nascidos vivos.

Para a presidente da SBP, a médica Luciana Rodrigues, essa é apenas uma das variáveis que têm repercussão negativa na atenção aos recém-nascidos e suas mães no Brasil. Por conta dessa realidade, a Sociedade lançou no início deste mês a campanha Nascimento Seguro durante o 7º Simpósio Internacional de Reanimação Neonatal realizado em Foz do Iguaçu. O projeto foi inspirado em movimento de defesa pelo parto seguro, organizado pela Sociedade de Pediatria de Santa Catarina.

“É indispensável e fundamental que exista toda segurança necessária em cada nascimento. Isso inclui a presença do pediatra - sempre - para assistir o recém-nascido, assim como de todos os outros membros da equipe, incluindo o obstetra e a enfermeira. Assim, assegura-se o bom atendimento para a mãe e o recém-nascido”, disse a pediatra Luciana Rodrigues Silva.

Ela espera que o lançamento dessa campanha leve a reflexões e à tomada de decisões, em especial pelo Ministério da Saúde, com ênfase no fortalecimento dos cuidados ao binômio mãe-filho, “valorizando-se a presença do pediatra, único médico habilitado para assistir o recém-nascido normal e o recém-nascido de risco”.

 

Todos os leitos

Atualmente, de acordo com o CNES, existem em funcionamento 8.766 leitos no País (públicos e privados), o que corresponde a uma razão de 2,9 leitos por grupo de mil nascidos vivos. Se considerados apenas os leitos oferecidos pelo Sistema Único da Saúde, essa taxa cai para 1,5 leitos/mil, considerando-se as 4.677 unidades disponíveis para essa rede.